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19 de set. de 2012

Mil vidas.

Caminhava sempre com uma pilha de livros abraçados contra seu peito murcho. Usava sempre seus livros como um escudo como se estivesse se protegendo de algo ou de alguém. Preferia mais as suas vidas já vividas dentro daqueles livros do que a sua nunca compreendida. Dizia ela que sua realidade se encontrava naquelas folhas amareladas. Fora delas, tudo era apenas um mal sonho. Nunca vira algo tão melhor quanto o seu mundo. Era repleto de rimas das quais ela sempre entendera. Seu único e verdadeiro vício era a escrita, a terapia que era escrever. Sua fome era de livros e seu cansaço era da banalidade humana. Não entendia como a vida funcionava, mas de uma coisa ela tinha certeza: já teria vivido mil vida antes de morrer.

Não dá para apagar uma história escrita com tinta preta.

Andei colecionando mágoas e pitadas de saudades. Tudo permaneceu intacto desde aquela noite extremamente fria em que você partiu. Ficou o seu cheiro na minha roupa, o seu gosto na minha boca e tudo mais o que eu não gostaria que ficasse. Ficou as desgraças que herdei de você. Aquela sua música preferida eu ainda a escuto. Eu sei a letra de cor e salteado. Aquela sua mania retardada de sorrir de todos e para todos passou para mim. A sua rotina de acordar cedo e tomar café quente grudou em mim. Tudo o que você deixou grudou em mim e sinto que nunca mais vai desgrudar. Tá tudo aqui, guardadinho num canto escuro e bem limpinho da casa, do coração. Te deixei na mais bela estante, na ultima prateleira envernizada e lustrosa do canto esquerdo do meu quarto. Às vezes eu volto alguns capítulos só para relembrar como aquele parágrafo foi gostoso de ser vivido. Mas logo faço questão de voltar na página certa. Não tem como esquecer um capítulo já lido e apagar aquela história ou simplesmente arrancar uma página do livro. O que tem que ficar, fica. E a desgraça do amor também faz questão de ficar.

Que seja eu.

Se quiser sorrir, que eu seja a causa do sorriso; se quiser pular, que seja nos meus braços; se quiser gritar, que seja o meu nome; se quiser gostar, que seja do meu jeito; se quiser rir, que seja das minhas piadas; se quiser entrar, que seja na minha vida; se quiser segurar algo, que seja as minhas mãos; se quiser esconder, que seja um chiclete; se quiser chorar, que seja no meu ombro; se quiser cantar, que seja para mim; se quiser dormir, que seja comigo; se quiser correr, que corra até mim; se quiser amar, que enfim, seja eu.