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10 de out. de 2012

Veneno em palavras.

Ele assentiu com a cabeça e virou a esquina bem devagar. Não era para ele concordar com o meu surto de mulher esotericamente apaixonada. Não era para ele aceitar de nenhuma maneira o fato de eu estar farta da sua presença. Não, não era nada verdade. Eu queria, como num filme de romance, que ele fizesse eu engolir cada maldita palavrinha dita com um grandioso beijo. A cada sílaba que caia da minha boca como chuva, eu cruzava os dedos ainda mais forte torcendo para que ele não acreditasse nelas. Uma mão de aço me agarrou o pescoço e me deixou inteiramente sufocada. Eu quis correr, chorar, desabar, desabafar e gritar “É tudo mentira! Eu o amo mais do que a mim mesma. ” e ser calada com um beijo. Mas não o fiz. Deixei que as palavras tomassem um rumo próprio e fossem em direção a quem elas queriam. E foram diretamente em direção a ele. Suas lágrimas escorreram lentamente pelo o resto da sua face e o meu coração foi sufocado ainda mais. Como doeu ver a pessoa que eu amava derramando lágrimas que não eram de felicidade. Eu quis retroceder, aperta o botão de restart e refazer aquela cena de novo, e de novo, e de novo… Eu quis não ter dito nenhuma daquelas bobagens e ter o levado para o meu apartamento depois do nosso encontro no restaurante do outro lado da cidade. Entraríamos nos beijando, tiraríamos desesperadamente nossas roupas e nossas mãos estariam incontrolavelmente apalpando tudo o que sentiam pela frente. Sua boca beijaria meu corpo todo e descendo… descendo… Chegaríamos ao ponto em que tudo começou: na cama de uma manhã de verão. Porém, nada disso aconteceu por culpa da minha atitude extremamente banal por ter atirado nele toda a minha raiva. Eu vi as suas costas curvadas de perfil quando ele virou a esquina com a cabeça baixa e com um soluço como o choro de uma criança. Eu quis ir atrás dele e dizer que estava louca, pirada, que eu o amo e que ele deveria, neste exato momento, me perdoar por ser tão estérica. Mas não fui. Fiquei parada, imóvel, e esperando que meu corpo me puxasse de volta para o apartamento de onde eu não deveria ter saído. Deixei ele ir, virar a esquina até não poder mais ouvir nenhum soluço de moço abalado. Abaixei a minha cabeça e subi até o segundo andar do meu apartamento. Me atirei na cama, fechei os olhos e continuei a ouvir o grito do silêncio me deprimindo: Você não deveria ter feito isso…

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