31 de ago. de 2012
Trajetória.
Há algum tempo atrás, ao saberem que eu viria, um sorriso passou a habitar frequentemente o rosto de vocês. Foram se passando um, dois, três, quatro, cinco meses e essa espera não acabava nunca. Eu já tinha um nome, um quarto, uma caminha, algumas roupas e até uma fraldinha. Seis e sete meses e o meu tamanho estava deixando a sua barriga cada vez maior. Você me alimentava, me fazia carinho através da sua barriga, tomava cuidado para não ser desastrada e me amava antes mesmo da minha chegada ao mundo. Eu podia ouvir bem distante uma conversa baixa de vocês dois discutindo sobre qual seria a minha comida favorita, se eu preferia banana amassada ou se me agradava mais o leite da mamadeira do que o leite do peito. Oito meses e você já não se aguentava mais de tão inchada e desengonçada que estava. Papai já estava cansado dos seus desejos malucos que o faziam levantar tarde da noite para ir realizar o seu desejo de comida (será que eu realmente poderia nascer com cara de morango?). Oito meses e meio e só mais um pouquinho. Só mais alguns dias até a minha chegada ao mundo. Eu já tinha o meu berço, o meu carrinho, o meu aviso de bebê à bordo no vidro detrás do carro, a minha mamadeira e principalmente a minha chupeta. Os olhos de vocês brilhavam a cada dia que vocês acordavam e lembravam que eu estava prestes a chegar. Alguns dias depois e os nove meses se completaram. Pronto, a primeira contração chegou. Eu vou nascer! Tome cuidado! Mais duas e três contrações até que finalmente a luz se esbarrou contra meus olhos. Chorei e chorei. E vocês também choraram a minha volta. Tudo perfeito; tudo nos conformes. (…) Quando completei um aninho de vida, vocês quiseram fazer uma festa para comemorar o meu primeiro e inesquecível aniversário. Eu não sabia cantar o parabéns e me assustava com tantas palmas e caras radiantes sorrindo para mim. Dois, três, quatro, cinco, seis, sete anos e etc. Eu ficava mais inteligente, mais hábil, mais alto, mais falante e mais mal criado. Queria tomar minhas próprias decisões, ter as minhas próprias regras e não queria saber de nada além de brincar e fazer o que me dava na cabeça. Dez anos e eu já estava prestes a ir para a quarta série. Só tirava notas boas, não dava trabalho para acordar e não me importava de arrumar a minha própria cama. O tempo foi passando e eu fui me esquecendo de arrumar a cama e o quarto. Vocês ficavam bravos e diziam que além de ser todo desmanzelado, eu não comia o que devia comer. Aos onze, doze, treze e quatorze anos eu já sabia responder rispidamente e sabia brigar ainda mais. Vocês ficavam abalados e diziam que não era essa a educação que tinham me dado. Eu não me importava tanto. Sempre me achei na razão de dizer o que tinha e pensava que tinha que dizer. Tudo girava ao meu redor (ou eu achava que tinha de ser assim). Ninguém podia pegar as minhas coisas, ninguém podia mexer nas minhas coisas e o que era meu, literalmente era meu. Aos quinze e na puberdade as coisas iam piorando. Nada dava certo. Nada era ao meu favor. Todos eram contra mim. Queria ir embora; fugir para bem longe. Arrumava a minha mala, pegava o que tinha de pegar, respirava fundo e hesitava quando abria a porta de casa que dava para a calçada. Nunca tive coragem o suficiente para abandonar aqueles que nunca me abandonaram nem quando eu dei o maior trabalho do mundo. (…) Ao verem chorando, eu chorava junto. É como se metade do meu coração estivesse se afogando em lágrimas. É como se o sangue que passava pelas minhas veias estivesse interligado com o sangue de vocês dois. Se vocês se cansam, eu me canso também. Se sentem dor, me dói também. Se vocês choram, eu choro também. (…) Os assuntos sobre sexualidade e namoro despejam de dentro de suas bocas como chuva despeja gotas das nuvens. “Eu sei me cuidar; eu tenho responsabilidade; eu sei o que faço”. Na verdade eu nunca soube o que fazer. Sempre fui tão dependente de vocês assim como um lápis é dependente de um apontador. Quando eu perdia a minha ponta, vocês me “concertavam” e me colocavam para funcionar outra vez. E eu sempre tão mal agradecido e tão egoísta nunca me lembrei de dizer o quanto os amava. Vocês que sempre me mimavam, sempre me ensinavam, sempre me seguravam quando eu ameaçava cair, me deram tantas oportunidades para dizer o quanto eu os amava. Passaram-se três anos depois do meu aniversário de quinze e vocês se prepararam para partir deste mundo. Deixaram comigo todo o aprendizado e a experiência de vocês. Me alertaram para não me deixar cair na onda dos outros. Fiquei somente com a riqueza moral e espiritual. Vocês partiram juntos e me deixaram aqui nesse mundo infernal. Não consegui abrir os olhos para a realidade. Não sabia como dizer o quanto os amava. Não sabia como agradecer e como me desculpar por tanto coisa que fiz e não fiz. Queria ter dito no dia das mães o quanto você era importante para mim, que minha vida sem você não faria o mínimo de sentido, que o seu ar era o meu ar. Eu queria ter dito no dia dos pais o quanto eu me orgulhava por você ser o meu herói favorito, o quanto eu enchia a boca de orgulho quando dizia aos meus amigos que o meu pai era o melhor pai do mundo. Ou nem precisava ser em uma data específica. Tive tempo o suficiente para lhes dizer o quanto os amava (e ainda amo). Mas o tempo já se foi. Tudo se foi. As minhas oportunidades morreram junto com vocês. Os meus perdões e os meus agradecimentos foram enterrados junto com vocês dois. Tudo acabou. Tudo se foi. Me encontro agora com dezoito anos, com olheiras de tanto chorar nas noites extremamente frias, com barba por fazer e cansado das pessoas. Queria um colo. Queria dois colos. Queria o colo de vocês. Queria voltar no tempo só para poder ouvir novamente os conselhos de vocês e segui-los todos corretamente. Queria não os ter decepcionado. Queria ter feito melhor. Queria ter sido melhor. Eu queria poder dizer o quanto a vida está monótona, cansativa sem nenhum dos dois do meu lado. Queria poder contar a vocês sobre a menina que conheci na porta da escola. Ela é linda e acho que estou apaixonado. Eu ainda sou virgem e não tenho aquele fogo para perder a virgindade como quando eu tinha quatorze ou quinze anos. Quero me casar e ter filhos. Dois filhos. Queria que vocês pudessem conhecer eles. Eu queria, na verdade, ter feito tudo diferente. Se aquela moça não tivesse esquecido de pegar o seu óculos dentro de casa; se aquele táxi tivesse pego o passageiro um pouco mais cedo; se aquele bebê não tivesse chamado a atenção do motorista do táxi, vocês não teriam sido atropelados pelo mesmo. A moça teria entrado no táxi já com o seu óculos, o passageiro teria sido pego no horário marcado, o bebê teria chamado atenção do motorista do táxi e vocês teriam atravessado a rua depois do táxi passar. Por causa de um simples acontecimento, agora eu estou fazendo o que tenho feito há três anos: escrever uma carta que nunca chegará ao seu destino correto. Os olhos dos meus pais.
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